Texto-modelo da prova bimestral – Bárbara Nakamuta

Atendendo a pedidos – mais do que justos -, publicamos um texto muito bem avaliado na prova do 1.o bimestre. A ideia é que a leitura de bons textos ilustrem os comentários que os professores fizeram em aula na devolução da prova, principalmente sobre o que se considera uma boa argumentação.

A Bárbara, da 3B1, fez um ótimo texto sobre o tema proposto: os trotes universitários no Brasil. Além da alusão a alternativas adotadas na FMUSP e da analogia com o feudalismo – recursos que lhe garantiram informatividade – a Bárbara conduz o leitor ao seu posicionamento contrário aos trotes, com argumentos persuasivos. É notável que não há muitas informações, mas ideias selecionadas e trabalhadas em profundidade. Esse é um bom caminho para conseguir um resultado consistente. Confiram o resultado!

 

Vassalagem universitária

A prática de trotes nas universidades é tão disseminada pelo Brasil que se tornou praticamente norma a sujeição dos calouros, por pura coerção social, a situações desagradáveis e constrangedoras. Ainda que seja vista por muitos como simples brincadeira ou rito de passagem, a ocorrência do trote é lastimável e perniciosa à comunidade universitária.

O trote, ao contrário do que é difundido nas universidades onde ocorre, não constitui uma cerimônia de iniciação adequada ou proveitosa. Sua prática, além de poder causar sérios acidentes, por vezes arruína, por meio de prendas e brincadeiras de mau gosto, um dia que deveria ser especial para os calouros e dedicado à parabenização deles pelo ingresso à faculdade. Ademais, embora defendido como rito de passagem, mal necessário ou tradição obrigatória, o trote é totalmente dispensável e substituível. Em faculdades onde foi abolido, como a Faculdade de Medicina da USP, os primeiros dias dos calouros são marcados não por vergonha e desconforto, mas pela introdução, conduzida pelos veteranos, às instalações do campus, pelo diálogo e troca de experiências entre estudantes. Dessa forma, ocorrem o estabelecimento de relações interpessoais e a verdadeira integração, marcando a primeira semana do calouro de modo infinitamente mais positivo do que um trote faria.

É fato que nem todos os trotes são violentos ou humilhantes, mas todos são prejudiciais ao contribuir para o fortalecimento de uma rígida hierarquia dentro da faculdade. Com a execução de ordens e brincadeiras do trote, os calouros se submetem aos veteranos, estabelecendo relação desigual bastante semelhante às de suserania e vassalagem do feudalismo, na qual um vassalo, por meio também de um ritual, declarava submissão a seu senhor. A diferença, contudo, além do milênio transcorrido desde a Idade Média, é que enquanto os vassalos cultuavam gratidão e lealdade a seus suseranos, os calouros, devido à hostilidade do trote, passam a ter uma imagem negativa dos veteranos, prejudicando suas relações. Dessa forma, um ambiente universitário, em que todos deveriam se unir e se integrar em pé de igualdade, passa a ser uma sociedade fragmentada e quase estamental, dividida entre calouros e veteranos.

Logo, o trote é uma prática lamentável que surte consequências mais profundas do que, em um primeiro momento, se imagina. Por não trazer nada de benéfico à experiência de ingresso dos calouros à universidade e ainda prejudicar suas relações com veteranos, o trote deveria ser abolido por todas as universidades.

Bárbara V. Nakamuta