Texto-Modelo da Prova Bimestral de Humanas – Olívia Bellotto de Moraes

Abaixo, vocês poderão ler o texto produzido na prova bimestral, pela colega Olívia Bellotto de Moraes, da 3H1. O tema é, como o título já anuncia, a superlotação dos presídios.

Vale observar vários elementos da dissertação escrita pela Olívia: a ótima organização das ideias (fica tão claro que a colega PLANEJOU o texto antes de o escrever…); a resultante coerência entre as ideias, do início ao fim do texto; a expressividade da introdução, devido à aplicação da técnica da Frase Nominal; a incrível atualidade dos argumentos, que demonstram que a autora escreveu o texto envolvida pelo tema e imbuída de tudo o que tem lido a respeito do assunto.

Boa leitura a todos!

Parabéns, Olívia!

Os problemas da superpopulação nos presídios

      Violento. Perigoso. Desorganizado. Infelizmente, assim pode ser descrito o cenário das cadeias brasileiras. A situação da superpopulação vem se agravando, e o poder público parece já não saber mais como devolver a ordem aos presídios, uma vez que causas e consequências fazem parte de um círculo vicioso difícil de ser quebrado.

      As causas e consequências geradoras desse aumento do número de presos encarcerados, lamentavelmente, são diversas e se encontram em vários âmbitos da sociedade. A começar pelo sistema educacional público, que também está muito degradado. Devido às péssimas condições de ensino, como falta de professores e insuficiência de equipamentos nas salas de aula, os alunos não se sentem motivados a estudar. Dessa forma, o que deveria ser um instrumento para tirar crianças e jovens de situação de risco não cumpre o seu papel. Além disso, sistemas judiciário e penal lentos e ineficazes como os brasileiros atrapalham ainda mais a situação: muitos presos que já cumpriram as suas penas continuam encarcerados e diversos suspeitos esperam julgamento durante meses dentro das prisões.

      Diferentemente do que se imagina, as consequências da superpopulação nos presídios não se restringem apenas ao âmbito humanitário. A violação dos direitos humanos, garantidos inclusive pela Constituição Brasileira de 1988, é o problema mais visível desse cenário, porém não o único. O aumento populacional comumente extrapola a capacidade máxima de detentos permitida em uma prisão, o que compromete a sua segurança. Como resultado, chefes do crime organizado continuam a comandar suas operações – isso quando não as fazem de dentro de suas celas, como é o caso do famoso golpe do prêmio falso – por meio de telefones celulares levados ilegalmente para dentro dos presídios. Outra situação também possível devido à superlotação das cadeias são as revoltas dos presos, que se amotinam contra os guardas. Frequentemente, a resposta encontrada pelas forças policiais e militares é, infelizmente, a violência, como aconteceu na revolta do Carandiru, presídio paulista onde 111 presos foram assassinados pela PM, em 1992. Ademais, há também um fator ideológico: não há interesse por parte da sociedade em reintegrar aqueles que já cumpriram a sua sentença, o que leva ex-presidiários a retornarem ao mundo do crime.

      Em conclusão, o problema da superpopulação carcerária é grave e precisa ser estudado para que planos sejam criados para o seu combate efetivo, uma vez que a conjuntura de fatores responsáveis pela questão é complicada e as consequências implicadas são diversas.

Texto-modelo da prova bimestral – Bárbara Nakamuta

Atendendo a pedidos – mais do que justos -, publicamos um texto muito bem avaliado na prova do 1.o bimestre. A ideia é que a leitura de bons textos ilustrem os comentários que os professores fizeram em aula na devolução da prova, principalmente sobre o que se considera uma boa argumentação.

A Bárbara, da 3B1, fez um ótimo texto sobre o tema proposto: os trotes universitários no Brasil. Além da alusão a alternativas adotadas na FMUSP e da analogia com o feudalismo – recursos que lhe garantiram informatividade – a Bárbara conduz o leitor ao seu posicionamento contrário aos trotes, com argumentos persuasivos. É notável que não há muitas informações, mas ideias selecionadas e trabalhadas em profundidade. Esse é um bom caminho para conseguir um resultado consistente. Confiram o resultado!

 

Vassalagem universitária

A prática de trotes nas universidades é tão disseminada pelo Brasil que se tornou praticamente norma a sujeição dos calouros, por pura coerção social, a situações desagradáveis e constrangedoras. Ainda que seja vista por muitos como simples brincadeira ou rito de passagem, a ocorrência do trote é lastimável e perniciosa à comunidade universitária.

O trote, ao contrário do que é difundido nas universidades onde ocorre, não constitui uma cerimônia de iniciação adequada ou proveitosa. Sua prática, além de poder causar sérios acidentes, por vezes arruína, por meio de prendas e brincadeiras de mau gosto, um dia que deveria ser especial para os calouros e dedicado à parabenização deles pelo ingresso à faculdade. Ademais, embora defendido como rito de passagem, mal necessário ou tradição obrigatória, o trote é totalmente dispensável e substituível. Em faculdades onde foi abolido, como a Faculdade de Medicina da USP, os primeiros dias dos calouros são marcados não por vergonha e desconforto, mas pela introdução, conduzida pelos veteranos, às instalações do campus, pelo diálogo e troca de experiências entre estudantes. Dessa forma, ocorrem o estabelecimento de relações interpessoais e a verdadeira integração, marcando a primeira semana do calouro de modo infinitamente mais positivo do que um trote faria.

É fato que nem todos os trotes são violentos ou humilhantes, mas todos são prejudiciais ao contribuir para o fortalecimento de uma rígida hierarquia dentro da faculdade. Com a execução de ordens e brincadeiras do trote, os calouros se submetem aos veteranos, estabelecendo relação desigual bastante semelhante às de suserania e vassalagem do feudalismo, na qual um vassalo, por meio também de um ritual, declarava submissão a seu senhor. A diferença, contudo, além do milênio transcorrido desde a Idade Média, é que enquanto os vassalos cultuavam gratidão e lealdade a seus suseranos, os calouros, devido à hostilidade do trote, passam a ter uma imagem negativa dos veteranos, prejudicando suas relações. Dessa forma, um ambiente universitário, em que todos deveriam se unir e se integrar em pé de igualdade, passa a ser uma sociedade fragmentada e quase estamental, dividida entre calouros e veteranos.

Logo, o trote é uma prática lamentável que surte consequências mais profundas do que, em um primeiro momento, se imagina. Por não trazer nada de benéfico à experiência de ingresso dos calouros à universidade e ainda prejudicar suas relações com veteranos, o trote deveria ser abolido por todas as universidades.

Bárbara V. Nakamuta